sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobre filmes, canções e felicidade.


Ontem, estava assistindo um clássico de 1967: “Ao mestre, com carinho” (To Sir, with Love), marcado por uma canção inesquecível com o mesmo nome do filme e por um impecável Sidney Poitier no papel de um professor íntegro que, através de colocação de limites, ensino de valores e elementos práticos de vida, além de oferecer e exigir respeito, consegue recuperar uma turma de alunos adolescentes incontroláveis por qualquer outro profissional. Sei que este tema foi explorado em muitos outros filmes mais recentes, mas nenhum me parece estar à altura deste, dentre outras razões, pela técnica plausível e eficaz aplicada pelo professor.
Mas não gostaria de falar do filme, hoje, mas de uma frase da canção que se tornou tão famosa quanto ele: em um determinado momento, a letra da música diz algo como: “O que, no mundo dos adultos, traz tanta felicidade quanto rolar na grama?” Imediatamente, me remeti à minha experiência pessoal de rolar na grama e, do alto dos meus 55 anos, tive que sentenciar: não, definitivamente, na vida adulta, não há quase nada que traga com constância um momento de plenitude e alegria tão completo como este. Independente de nossa infância ter tido altos e baixos e nem tudo ter sido tão bom, momentos como este têm um sabor dificilmente repetível.
Insisto em achar que algo está mal explicado em nossa história; eu me incluo de forma bem embasada entre aqueles que não creem que a natureza seja caos, mas sempre cosmos; portanto, há que haver uma felicidade de igual qualidade para os adultos e para todas as idades, apenas adaptada às novas condições. Talvez o problema resida neste ponto: no intuito de adaptar, mutilamos elementos imprescindíveis à felicidade em qualquer momento da vida.
Senão, vejamos o que havia nos momentos de felicidade da infância, quando rolávamos na grama:

1.       Presença: estávamos de corpo, mente, emoções, tudo presente, enchendo-se de terra e grama, juntos e colaborativos. Nada de nostalgias ou ansiedades: um tempo pleno e autossuficiente.

2.       Despersonalização: nenhuma necessidade de afirmação do eu com este ato. Rolávamos nós, os amiguinhos e quem quisesse rolar, e a gente se divertia com a bagunça de todos, sem competições, conflitos ou vaidades.

3.       Nada era frio e simplesmente racionalizado: tudo era tingido por emoções muito simples e sadias: saboreávamos as pequenas coisas que se apresentavam todos os dias. Meia dúzia de tampinhas de garrafa, e você já tinha um jogo que envolvia todas as nações do mundo ou até de outros planetas e galáxias...
                                                                                                                                                           
Enfim, você saberá acrescentar o item 5, 6, 7 e sei lá mais quantos, e verá, talvez com a mesma surpresa que sinto agora, que não era necessário abrirmos mão disso; quebramos as pernas da nossa felicidade, e agora, ela tem pouca altitude e mobilidade. Fica presa em momentos raros, ou se reduz a mero prazer sensorial, em todas as suas categorias. Dá para desenvolver esta ideia, e muito! Deixo a tarefa para você.
Apenas acrescento uma pequena e doce lembrança, como arremate apressado da história: já contei que minha avó dizia que as libélulas eram fadinhas enfeitiçadas por uma bruxa má, e que, um dia, voltariam a sua forma real. Ainda hoje, gosto de libélulas e olho para elas com aquele ar de cúmplices de um segredo. Várias vezes, antes de deitar, em minhas orações, eu pedia a Deus que ajudasse a quebrar o feitiço e as fizesse voltarem a ser fadinhas. Pedia com fervor e lágrimas nos olhos, algumas vezes. Não sei como Deus resistiu a isso, se é que resistiu. Mas uma coisa é certa: nunca mais, na minha vida, fui capaz de uma oração tão autêntica como esta: nada de benefícios para mim, puro amor e compaixão pela suposta dor das libélulas, com seus generosos dois pares de asinhas para emprestar um a quem quiser voar. Eu deveria ter progredido a partir deste ponto, em minhas orações; sem perder estas bases...
Vou refletir bastante sobre isso, e desejo o mesmo para vocês; mas por agora, vou por aí, ver se encontro com alguma libélula para pedir que ela ore por mim, para que eu também recupere minha verdadeira forma; quem sabe...

3 comentários:

  1. Amei professora!! Como sempre sensível e com muita delicadeza!!! 👏👏

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  2. Ah quanto me lembro do aroma da minha lancheira e quanto os aromas são algo significativo para mim. Com os aromas todo um cenário se faz em minha mente e verdadeiras histórias se desenrolam por aqui. Mas, lendo tudo que escreveu foqufi aqui sentindo em tudo que construí em termos de palco, cenário para essa felicidade e o quanto de fato, já está tudo aqui, mas nem sempre e nao é em todos os momentos que acessamos isso. Hoje, olho para uma árvore anciã da praca por onde caminho, perto de casa e é como se ela me dissesse: lembra da sua juventude quando sentindo o aroma de terra molhada ao chover, vice imaginava estar em um lugar como este? Pois então, aquele cenário era a semente que foi plantada, agora, estou aqui a falar contigo, depois desses anos passados. Enfim... Foi isso que essa mensagem linda que você nos deixa me inspirou! Gratidão!

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  3. Aiii que lindo relato. A senhora sempre emocionante

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