segunda-feira, 23 de junho de 2014

SOBRE AS MÃES




Dualidade, paradoxos, jogos de opostos; essa é uma das regras básicas de organização do mundo em que vivemos, e a maternidade não foge a ela: acontecimento absolutamente banal e prosaico para os que observam desde fora, mistério desconcertante para quem a vive. Contradição para a nossa visão racionalista que pretende abrir todas as portas apenas com a ferramenta do intelecto, a maternidade está aí para provar que há certas coisas que só se entende quando se vive; assim, observadores, saibam que as mães  vivem num mundo que lhes é absolutamente vedado, e que nem todo o amor que elas lhes dedicam permitirá que lhes traduza em palavras, porque, aliás, o forte do amor não são as palavras. É nessa dimensão que elas se encontram quando, diante de seus olhos perplexos, conversam com a própria barriga, que reage ao som de sua voz, decifram o código secreto de choros e balbucios, entoam melodias que nem chegaram a ser compostas, mas que possuem um infalível efeito tranquilizante e sonífero, e tantas outras coisas tão insólitas e tão belas.
            Há emoções, há descobertas impossíveis de expressar em palavras que a mãe traz em seu relicário, e que fazem dela um ser todo especial. Toda a mãe, por exemplo, que atravessou incontáveis madrugadas trocando incontáveis fraldas, que viu tantos dias nascerem ao som de sinfonias de pássaros e de bebês, sabem que as crianças e as manhãs são feitas da mesma substância: alguma coisa tão pura, de início, de despertar, que se encontra adormecida no homem comum e que, para nós, mães, torna-se uma reminiscência, uma magia que une as duas pontas de nossas vidas.  Sim, toda a mãe tem um pouco de criança, um pouco de filha; relembramos a inocência e a curiosidade diante de um mundo de coisas enormes, desproporcionais para nós; relembramos o colo, com aquele calor e sentimento de proteção e segurança absoluta que raramente voltamos a sentir na vida; relembramos vozes, palavras e melodias tão doces, embora nem saibamos mais o que elas diziam. Essas coisas, voltamos a descobri-las, quer na luz azul-acinzentada de uma manhã recém-nascida projetada sobre um bebê que brinca com os pezinhos, quer nos pés e mãos lambuzados de areia, ou nos incontáveis tesouros que guardamos, compostos de rabiscos, botões, pedrinhas e flores secas, ou nas intermináveis questões e explicações sobre coisas simples e pequenas, sobre as quais já havíamos nos acostumado a pisar insensivelmente e que, agora, somos obrigadas a parar, perceber e explicar: “-Por que é que o céu é azul, como é que o gatinho entrou na barriga da mamãe dele, como é que a plantinha saiu de dentro daquela semente tão pequenininha?”


            Portanto, toda a mãe tem seus mistérios, suas histórias; quebra a lógica de trocas da sociedade numa doação sem espera de retornos, sem prazo ou limites, num aprendizado constante de generosidade. Quebra as barreiras do tempo e se torna novamente um bebê, uma criança, um adolescente, falando a mesma língua, compreendendo seus medos e desejos. Pois verdadeiramente, só compreendemos aquilo que amamos, e poucos entendem de amor como as mães. Partícipes conscientes da obra da Grande Mãe, a Natureza, todas as mães compartilham de algo de sua grandiosidade e também de sua beleza.

Um comentário:

  1. Alento

    Quem é essa,
    cuja alcunha tão pequena, guarda em si o infinito,
    e cuja luz do olhar querido é fonte de amor que não seca?
    Perante a ela ergueu-se a escada até o paraíso e através de sua voz falam os anjos;
    Ela conhece mais de nós, do que nós mesmos.
    Sua lealdade é maior conosco, do que nossa própria lealdade.
    É dona de uma fonte de sol, que se esconde sob o manto de um amor incondicional,
    No altar desse amor, entrega suas vontades para doar-se sem medida.
    Ah! Esse amor tão singelo, bálsamo de toda existência!
    Quando cumprires tua jornada, decerto hás de regressar como um anjo.
    Se teu corpo envelhece, que importa?
    As marcas do tempo podem eclipsar teu rosto, mas tua alma sempre será fresca.
    Ah! Esse amor tão genuíno!
    Por mais velho que eu esteja, serei sempre pequenino.
    O universo, sabendo da nossa fragilidade quis compensar-nos,
    Seria preciso graça, renúncia, iluminação e talento;
    A sabedoria divina lançou sua voz ao longe e
    dela ecoou o nome:
    MÃE! Templo de abrigo e alento.
    gislaine ribeiro

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