quarta-feira, 4 de junho de 2014

Sobre o Rubídio, as Dicotiledônias e os Pseudópodes



Hoje, conversando com um amigo que, como eu, anda pela casa dos cinquenta e alguns anos, começamos a lembrar dos nossos estudos no já distante ensino médio. Após eu me queixar por saber decorados até hoje todos os nomes das repúblicas de uma União Soviética que já não existe desde 1991, ele disparou a recordar da tabela periódica (que também mudou bastante) e dos nomes citados no título deste artigo e  outros, aos borbotões, todos muito curiosos, recebidos e decorados em diferentes disciplinas. Aí, inevitavelmente, acabamos por rir e nos perguntar: ao longo destas décadas de vida que já deixamos para trás, quando foi que utilizamos este “conhecimento”, na sua maior parte já “deletado” pela memória? E nossos colegas de classe de então, salvo aqueles poucos que seguiram carreiras específicas nestas áreas...será que alguém lançou mão deles? A resposta, penso, é bem óbvia: os pobres “pseudópodes” dormiram por décadas, em nossas mentes, para só despertarem no dia de hoje.
Nas horas seguintes, transferi a conversa para dentro da minha mente, e comecei a me indagar: do que realmente precisei saber, nestas últimas décadas, para viver melhor? Sobretudo, quais foram as necessidades de conhecimento mais urgentes, em parte não solucionadas até hoje? A lista não foi difícil de fazer, nem muito longa, e era mais ou menos assim: precisei aprender a dominar minhas próprias emoções, para que não oscilassem caoticamente; precisei dominar razoavelmente meus pensamentos para não me tornar a criatura mais dispersa e fantasiosa do mundo. Precisei de treino diário de paciência para conseguir estabelecer alguma relação com o mundo, em todas as direções para onde me voltei (inclusive na direção do espelho); da aceitação e da compaixão, para não desistir de todos (inclusive de mim mesma!)... E o que mais? De perseverança, para não abandonar a luta contra os meus defeitos, depois de ser derrotada pela milésima vez; de compreensão, para ver o essencial por trás da contraditória e mutável personalidade própria e alheia, e para poder estabelecer sentimentos profundos e verdadeiros, baseados em algo de verdadeiro, em mim e no outro. De esperança, para não perder as motivações e os sonhos; de sensibilidade e critério, para saber quando atua o próprio orgulho desenfreado, e freiá-lo, e onde começa a própria dignidade, e impor limites. E mais algumas coisinhas, muitas das quais, no geral, não cheguei ao nível necessário de domínio ainda nos dias em que vivo. Precisei muito deste conhecimento; precisei em doses cavalares. E não houve método educacional oficial, convencional, que os oferecesse para mim, ou para ninguém, dentro do meu círculo de conhecimento.
Relembro, então, do jargão atual, “hit parade” das rodinhas de conversas de palpiteiros: “A raiz dos problemas que vivemos é a carência de educação.” Concordo com esta máxima; concordo mesmo, no máximo grau, contanto que alguém me explique o que entende por educação; senão, corremos o risco de que os verdadeiros “peseudópodes” (literalmente, “falsos pés”) sejam os nossos superficiais conceitos e palpites sobre os problemas do mundo. E também não cai bem para mim a explicação de que isso se deve à “deficiente grade de disciplinas do curriculum brasileiro, que preza pela quantidade...” Ora vejam: que há grades de disciplinas diferentes e até melhores pelo mundo afora, eu sei bem que as há, mas que alguém no mundo, neste momento, esteja formando os seres humanos, e não somente informando-os... vamos e venhamos: que idílico lugar é este de seres humanos virtuosos, e não apenas adestrados por padrões coletivos de "comportamento correto e civilizado"? Onde fica, no mapa, esta paradisíaca Shangrilá, ou Éden?
Sei que a questão não é simples, pois formar exige que se tenha formação, endossada pela própria capacidade de dar respostas à vida; como diria nosso amigo Djavan, em uma de suas belas canções: “- Sabe lá o que é não ter e ter que ter para dar...”
Não pretendo com isso fazer nenhuma espécie de “carta aberta aos jovens”, que os incite a não estudarem Física ou Biologia; os vestibulares convencionais vão exigir isso deles, pois é condição necessária (mas não suficiente!) para sobreviver razoavelmente nos dias atuais. Mas gostaria, sim, de avisá-los de que a vida oferecerá muitas outras espécies de vestibulares, cuja reprovação traz perdas muito mais importantes e dolorosas. Procurem repostas consistentes; não conheço alguém que saiba tudo, mas, se tratamos de algumas pequenas respostas coerentes, há quem tenha sim, e queira compartilhar conosco. Uma dica: normalmente, são os menos arrogantes, pois já perceberam o tamanho da própria ignorância (o que já implica em um razoável grau de sabedoria).
Não se enganem: a vida exige sabedoria, e sabedoria não se improvisa, não se “chuta” nem se “cola”. E, daqui a algumas décadas (que passam mais rápido do que possam imaginar!), só quem conquistou algo desta sabedoria pode dizer que teve um tanto de êxito e realização na vida; o resto vai se reduzir ao que é: simplesmente... o resto

Nenhum comentário:

Postar um comentário