segunda-feira, 30 de junho de 2014

A Lógica e a Inteligência da Vida:

Para Mônica Dias e Ricardo Vela.

No aeroporto, uma menininha pedia que a mãe abrisse um pacote de m&m’s. A mãe atendia, sorridente, ao seu pedido, e lhe devolvia o pacote aberto, junto com um beijo; singela e meiga cena. Um dia, a menina crescerá; já poderá abrir, e até mesmo comprar seu próprio pacote de m&m’s, ou outra coisa qualquer que deseje. Ainda assim, amará a mãe, mas será... um pouco diferente. Chegará um tempo, mais ainda no futuro, em que a mãe já não poderá comprar nem abrir seu próprio pacote de m&m’s, e a filha abrirá para ela; os sentimentos ainda estarão aí, mas ainda mais diferentes que na cena anterior: a filha agora tem seus filhos, seu trabalho... as demandas da sua própria vida, e a mãe terá que achar espaço no meio delas. Um espaço que, em geral, se estreita quando o tempo avança.
Em tudo isso, guardando lugar para as sempre possíveis variações individuais, os sentimentos sofrem variações previsíveis e “mapeáveis” com antecedência, até. É a chamada “dança da vida”, com passos nem sempre tão belos, algumas vezes dolorosos para seus integrantes. Isso transmite uma impressão estranha: como se fôssemos executantes de um “software” cujo final, um tanto amargo, já conhecemos desde a aquisição do “pacote”.
Quando vivemos um momento como o que hoje vivo, em que alguém que amamos se vai, algumas vezes, a vida nos surpreende com algo não previsto em nenhum software conhecido: pessoas sem qualquer vínculo de sangue físico, capazes de entrar na tua dor e dividi-la contigo, por simples compromisso com a dor humana. Pessoas que tomam para si a tua dor e “pagam o preço” junto contigo. Pessoas...
Isso me faz pensar sobre a margem de imprevisibilidade dos sentimentos humanos; parece que existe uma “quota básica” dos mesmos, incluída no “pacote vida” adquirido, mas isso não é tudo: é apenas o começo. A partir daí, parece que o sentimento humano envereda por uma outra lógica, sem algoritmo previsível, uma espiral ascendente e ousada, bela e... humana. Ainda iremos querer nossos pacotes de m&m’s, talvez, podendo ou não adquiri-lo ou abri-lo sozinhos; mas haverá mais que prazeres e desejos deste pequeno eu, amante de chocolates e de si mesmo, e de não muito mais. Que insólito processo o homem é capaz de desencadear ao desbravar novos circuitos de sensibilidade e necessidade, como se trouxesse o coração do outro para si; já não é gratidão, convenção ou protocolo social que rege o processo; é só...coração.
Isso surpreende, e dá um novo sabor de aventura à vida; quem sabe o que ainda virá, quantos corações conseguiremos compactar e incluir dentro do nosso? Aonde as necessidades deles nos levarão? Posso mesmo ousar imaginar o ponto final deste processo: todos os corações dentro de um só; todas as necessidades humanas demarcando o seu destino; um espaço que se expande quando a vida avança; uma outra lógica... Só o vislumbre dessa possibilidade dá uma nova perspectiva à vida, mais doce que m&m’s, mais contundente convite ao voo rumo a um céu humano de possibilidades do que qualquer aeroporto do mundo possa simbolizar.


Se tem um nome para isso, talvez seja... Humanidade; esse território inexplorado e belo como um conto de fadas; acho mesmo que estes contos são diários de viagem de quem andou por aí, e quis nos deixar uma trilha, um passaporte. Honra, nobreza, grandes desafios compartilhados, amores eternos... onde? Nos caminhos tão pouco explorados... do coração humano, quando se abre e se expande além de qualquer “script”, por um simples e grandioso ato de amor e de vontade.


8 comentários:

  1. Belíssimo texto! Linguagem poética que fala diretamente à alma.
    Vi minha mãe abrindo pacotes para mim. Depois eu os abri para ela.
    E logo chegara o dia em que minha filha os abrirá para mim...

    Abraço-amigo.

    Rosinha

    ResponderExcluir
  2. Belíssimo texto! Linguagem poética que fala diretamente à alma.
    Vi minha mãe abrindo pacotes para mim. Depois eu os abri para ela.
    E logo chegara o dia em que minha filha os abrirá para mim...

    Abraço-amigo.

    Rosinha

    ResponderExcluir
  3. "por simples compromisso com a dor humana" Por aí...

    ResponderExcluir
  4. Quando a consciência desperta, pouco a pouco o humano se torna mais Humano. Obrigado pelo texto!

    ResponderExcluir
  5. No inicio, a cena da mãe dedicando todo o amor e carinho à pequena filha, me fez pensar nos vários momentos, tão simples e delicados como este, que presenciamos diariamente e pouco valor damos. Quando meu filho passa por um senhor já idoso que não resiste a energia da juventude e faz nele, um carinho na cabeça, por exemplo.
    Mas então a morte. Ela entra no texto e não traz apenas lembranças de um "quase" pai que já se foi, mas a dor antecipada pela possível perda de meu próprio pai.
    Me parece que quando vamos somando os anos em nossa coleção particular, começamos a nos conscientizar sobre o que é valorizar o que se tem, enquanto se tem.
    Não tenho medo da morte. Mas tenho pavor em saber que algumas pessoas terão que partir um dia. É justamente por isso que me parece que precisamos aprender a valorizar cada segundo junto daqueles que amamos, e nos dedicar, sempre que possível, aos que nem conhecemos, mas que nos cercar e vez ou outra, ainda que não de forma declarada, pedem por nossa ajuda.

    ResponderExcluir