domingo, 1 de junho de 2014

Reflexões matinais



“(...) Esvaneceu-se para sempre o meu sonho de Amor..
As horas fogem,
e morro desesperado...
E nunca amei tanto a Vida!”

G. Puccini, ópera “Tosca”, trecho final de “E lucevan  le stelle” (“E reluziam as estrelas”).

Hoje , no percurso matinal para o trabalho, Mário Cavaradossi, personagem de Puccini na “Tosca”, cantarolava na minha mente. Sabe-se lá por que razão, eu lembrava também da “Teoria do Impacto”, joia da filosofia oriental, que diz que a consciência nasce do contraste: entre duas cores, entre duas formas, entre duas notas musicais, entre o que temos e o que perdemos, entre a morte e a vida... E eu me lembrava disso e via Cavaradossi, atado à murada de um castelo, poucos minutos antes de sua execução, percebendo e cantando uma melodia lindíssima sobre o quanto sua vida tinha sido absolutamente feliz por pequenas coisas, talvez não tão valorizadas, quando as viveu... 

Quando saí de casa, meus cães brincavam, eufóricos, no gramado do quintal, e eu, como sempre, pensava: “Felizes por tão poucas coisas... só porque amanheceu e estão vivos!”, E, de repente, Cavaradossi me disse: “Felizes por tantas coisas! Por  inúmeras coisas! Olhe de novo e enxergue!”  E pensei em tudo isto, nestas singelas e imprescindíveis verdades processando-se mais no coração do que na mente de Puccini, e chorei. Chorei porque há manhãs, e porque houve Puccinis que souberam ver e transformá-las em beleza, e porque temos tanto...  “A simplicidade é o maior dos requintes”, dizia Da Vinci, outro que via tanto, e provavelmente também via mais através do coração.

Ao agradecer, lembrei, porém, de que temos que ter cuidado até para ser gratos. A alienação do materialismo nos faz dizer: “Obrigada por Puccini, que era divino!” É como agradecer pela sombra da rosa, e não pela Rosa... Pucccini, Da Vinci e outros tantos eram gênios porque souberam ser canais para que a beleza chegasse ao mundo. Lao Tsé dizia: “As sombras nasceram no mundo porque os homens se tornaram opacos”. Os gênios sabem ser, por alguns instantes, transparentes: assim, a Luz desce ao mundo e nos alcança. Pucccini era maravilhoso, mas Puccini não era divino: Deus era Puccini, Deus era Da Vinci, Deus era Lao Tsé, assim como Shakespeare era Otelo, era Hamlet, era Rei Lear, mais era muito, infinitamente mais, além disso: era Mistério. E não há outra coisa a fazer, se não agradecer a Deus, e ao seu Mistério, e a todos que O manifestam no mundo.

E tive que chorar e que rir quase que ao mesmo tempo, pois as pessoas que cruzavam comigo me olhavam, viam minhas lágrimas e pareciam preocupar-se e compadecer-se: deveriam me invejar apenas por este meu “minuto de glória”, porque eu estava em meio a Rosas. Platão dizia algo muito parecido, e eu entendi melhor, neste momento: há quem se apaixone pelas sombras das sombras, há quem ame as sombras das Rosas, e há quem ame... as Rosas! Isso também lembra o caminho de Eros, de Plotino, outro gênio que via, e parecia ver o tempo todo, e parecia viver o tempo todo num jardim de rosas! 

Ainda que peque por uma absoluta falta de originalidade para saber agradecer, pois vivo muito longe de poder dar à luz a Cavaradossi’s, não posso deixar de dizer, com a mais íntima, simples  e legítima das minhas vozes: mil vezes grata, Senhor das Rosas, que nos envia os gênios como dádivas!



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