quinta-feira, 12 de junho de 2014

“Que seja feliz quem souber o que é o Bem!”




Este verso da tão conhecida canção do álbum “Feliz Natal”, da cantora Simone, que, embora antiga, ainda se faz bastante presente nesta época do ano, merece, com certeza, mais do que um cantarolar despretensioso: pede uma boa reflexão filosófica. O que seria “saber o que é o Bem”?
O mais curioso é que, na citada canção, a felicidade é colocada como resultado de saber o que é o Bem, ou seja, como objetivo secundário, e não principal: ao sermos fraternos, justos, isto é, humanos, somos, consequentemente, felizes; ao desejarmos a felicidade em primeiro lugar, a qualquer preço, corrermos o risco de pagar um preço alto demais, que nos desumanize. Um belo conceito, sem dúvida.
Mas, voltando ao principal, o que seria mesmo o Bem? Num momento de relativização de tudo e filtragem de todos os valores através da lente mais que duvidosa do egoísmo, o comum é percebermos que, para a maioria de nós e na maioria do tempo, o bem é aquilo que nos beneficia a cada momento. Ou, mais restrito ainda: o que agrada aos nossos gostos, e não o que atende às nossas necessidades reais para crescermos e atuarmos como seres humanos legítimos.
O Filósofo Platão, em seu “Mito da Caverna”, diz que aqueles que atingem a sabedoria (saída da caverna) veem as coisas iluminadas pela luz do sol, que representaria exatamente a ideia do Bem. Em geral, no materialismo da caverna, iludidos por interesses mesquinhos, vemos as coisas iluminadas pela luz destes mesmos interesses, “lanterna” de baixa potência, que sempre se faz a mesma pergunta: “-Para que isto me serve?”, e sempre ilumina apenas aquilo que lhe é egoisticamente útil: “Há quem passe por um bosque só veja lenha para sua fogueira”, dizia o escritor russo Leon Tolstoi. Pelo contrário, quem vê as coisas iluminadas pela ideia do Bem pergunta a si próprio: “Como eu posso servir a isto?” Enfim, o centro gravitacional de sua vida já não são os caprichos de sua tão querida personalidade, mas os princípios e valores universais aos quais serve.
“O Bem é aquilo que une”, completa Platão. Ou seja, dissolve as fronteiras do egoísmo e oferece, ao invés de pedir; doa, ao invés de esperar contrapartida; entrega, ao invés de tomar para si.
Quando, numa data sagrada, como o Natal, nossos pensamentos voltam-se novamente para nos aproximarmos de Deus, penso que não é demais lembrar que o Bem talvez seja seu principal atributo. E o Bem não é apenas aquilo que nos beneficia, mas aquilo que beneficia o mundo através de nós. Somos (ou devemos ser) agentes do Bem no mundo, e ele renasce nesta dimensão a cada vez que o encarnamos. Isto significa que o nascimento divino não é só um fato histórico ocorrido numa data determinada, mas também um fato mítico que se reitera a cada vez que um homem desperta, “nasce” para sua própria natureza, inspirado neste exemplo. Oferecer-se ao Bem, para servi-lo no mundo: eis um bom presente de Natal... para a humanidade!

2 comentários:

  1. Obrigado pelas sábias palavras de sempre.

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  2. "E o Bem não é apenas aquilo que nos beneficia, mas aquilo que beneficia o mundo através de nós."
    "Ouvi-la" é acordar da muita amnésia de que "padecemos". Obrigada por mais uma "pérola" de sabedoria.
    Um beijo deste céu de portugal :)

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