sexta-feira, 20 de junho de 2014

Primavera




Quando eu era pequena, em minhas festinhas de aniversários, usando chapeuzinho-cone de papel colorido, com aqueles incômodos elásticos enrolando-se debaixo do queixo, lembro que algumas pessoas me parabenizavam dizendo: “- Completando mais uma primavera!”
Sei que isso é antigo e “lugar comum”, e que não se usa mais. Porém, nestes últimos dias, vendo que a estação se aproxima mais uma vez, parei para pensar: quantas primaveras eu já completei, na minha vida? Já se vão umas cinco décadas em que a natureza traz de volta a primavera, e acho que não alcancei “completar” nenhuma, no sentido de entendê-las, de reter algo delas em mim.
O que é este “eterno retorno”, que sempre traz de volta a primavera? Pensava nisso quando o elevador se abriu, esta manhã, e eu disse “bom dia” às pessoas. Na minha juventude, tinha uma resistência terrível para falar com desconhecidos (e até mesmo com conhecidos!). Hoje, eu o fiz naturalmente, e não apenas para cumprir com uma convenção social: com o passar dos anos, nasceu em mim uma percepção de como é rude e irracional ignorar aquele universo que passa diante de você, um ser humano, como se fosse nada; veio à tona a necessidade de dizer a eles: “Eu te vejo, você existe para mim. Antes de qualquer coisa, desejo o bem para você, hoje.” Isso deve ser parte do que o eterno retorno cultivou: quantas portas de elevadores foram abertas à minha frente até que, um dia, eu “floresci” para isso?  Ainda que escassas estas flores, são verdadeiras: são uma conquista.
Vejo um monte de brotos de primaveras humanas aguardando dentro de nós: quando será que vou passar a gastar dez segundos a mais para ter tempo de olhar nos olhos das pessoas, agora, e não apenas cumprimentá-las, mas legitimar minhas palavras com sentimentos? Quando vou conseguir deter a mente e olhar para a vida, pura e simplesmente, e não para os meus próprios limites projetados na vida, deformando-a? Quando vou olhar para as coisas não somente para ver, mas para ver através delas, aceitando esse convite simbólico que todo espaço e todo tempo nos oferecem, de nos levar “de volta para casa”, relembrando a origem e o sentido, o mistério por trás de tudo isso? Para viajar na linha do tempo e lembrar de todo o belo que já vi e vivi, e recuperar a certeza de que isso tudo ainda existe, de alguma forma, em algum lugar, pois o verdadeiramente belo não morre? Para fechar os sentidos e mergulhar em mim mesma, saciando minha fome de identidade, de paz, de perpetuidade, na mais profunda e intensa das viagens?
Pois é... Quantas primaveras se passaram, mas quantas ainda estão por vir!
Primavera, eu te saúdo; sou parte da natureza a quem presenteias com vida, e uma parte muito especial, pois, através da consciência desperta, dom dos homens, eu posso te perenizar e estar contigo sempre. Quando eu te compreender e viver em maior profundidade, não me deixarás no passar dos ciclos. Soprarás a última velinha do bolo comigo e já não contaremos “quantas primaveras”, pois serás única, e eu também. Como minha mestra nesta arte, superarás comigo o mistério das coisas que vão e que vêm e penetraremos no mundo das coisas que são, e simplesmente seremos... para sempre.

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