terça-feira, 10 de junho de 2014

Mais um sonho...



“Acredito ser o mais valente nesta luta do rochedo com o mar...”

Mais uma “movimentada” noite, onde um sonho persistente me acompanhou até quase o despertar. Um sonho ambientado em uma situação aparentemente banal, como sempre: eu arrumava a casa e o vizinho cantava alto um samba-enredo. E, como todo mau cantor, enrolava a língua na letra, que parecia não conhecer bem, e gritava a plenos pulmões o refrão.
Lembro que eu ainda resmungava comigo mesma sobre o fato de ter mudado para uma casa exatamente para ter silêncio, e havia arrumado um vizinho passista de escola de samba e mau cantor, mas com ótimo fôlego, virtude esta que, mal empregada, me torturava.
Lá pelas tantas, já “entregando os pontos”, eu teria pensado: “Esse refrão deve ser muito significativo para ele, pois o canta com bastante ‘emoção’...” Devo ter tentado, por uns segundos, entender o que significava, mas acabei voltando minha atenção para o trabalho de bater uma almofada, que levantava uma névoa de pó diante de mim. Mas a pergunta amanheceu comigo, e ainda não me deixou até agora.
Quem é o mais forte ou o mais valente dos dois, o rochedo e o mar? Acho que nenhum, ou os dois, pois, no curto prazo, vence o rochedo e, no longo, a água, como reza o ditado popular: “Água mole em pedra dura...” Mas este tempo, curto ou longo, junto com o macio e o resistente, o claro e o escuro, o alto e o baixo etc etc, faz parte de um jogo de dualidades da vida que tem muito pouco de real, embora aparente o contrário.
Depois de muito “matutar”, só ainda agora é que, com esse refrão rodando direto no hit parade da minha mente, percebi que a própria letra da música trazia a resposta para a questão: quem é o mais valente? Eu! Eu acredito ser o mais valente! Claro; faz todo sentido. Neste mesmo momento, agora, assim como em toda a minha vida, as dualidades se batem dentro de mim: ânimo e apatia, raiva e alegria, revolta e aceitação, perdão e ressentimento e muitas outras. Batem e se machucam, e me machucam, mas eu prossigo. Tenho prosseguido valentemente por toda a vida.
Mas quem é esse “Eu”, tão valente, acima das dualidades? Sempre digo aos meus alunos para imaginarem uma estátua sobre uma mesa de quatro pernas, mas presa ao teto por um espesso fio de náilon amarrado a um daqueles ganchos de pendurar samambaias. Posso cortar as quatro pernas da mesa, mas a estátua permanecerá de pé, pois ela não depende da mesa, apenas roça sua superfície: seu ponto de apoio está acima.
A vida, muitas vezes, “corta as pernas” de nossa mesa: perda de um emprego, de um relacionamento, problemas financeiros, traição de alguém que amávamos... Como ficamos de pé?
Uma voz suave desde dentro de mim parece me soprar que há algo meu que está em outro degrau da escada, acima deste, e me convida a subir. É como quando duas crianças brigam por um ursinho; basta algo simples para conciliar a situação: não desejar mais o ursinho, e você sai da briga. Há coisas bem mais nobres e serenas no degrau seguinte, próprias de uma consciência madura, que podemos e devemos desejar, antes que chegue este sonhado dia em que superaremos todos os desejos. O Caibalion egípcio chama isso de “princípio da neutralização”: neutralizar desejos de um patamar exercitando desejos de outro, e assim sucessivamente, até o topo da escada.  
Eu desejo que os seres humanos sofram menos; desejo mesmo, ardentemente. Desejo que nem eu mesma nem ninguém sejamos cruéis, pois é como derreter chumbo e derramar na nossa alma, e arrastá-la pela vida afora assim, ferida e pesada. Desejo que meu carma seja tão bom, que eu esteja passando com o copo d’água quando a flor estiver secando, e assim, com todas as flores, de todos os tipos. Desejo tão fortemente que dói meu coração. Isso me faz mais valente do que o rochedo e do que o mar, que pararão de bater, um dia. Meu sonho é eterno.
Um mestre chamado Michel Echenique me disse, uma vez, tempos atrás: “Há algo em nós que é como a geografia terrestre: tem cumes e vales, sobe e desce. Mas há algo que é como o sol, elevado e luminoso, que observa tudo, sereno, desde cima. Vire sol sempre que puder, e o relevo será menos sofrido”.
Certo, mestre, eu lembro e acredito. Creio ser a mais valente, nesta luta do rochedo com o mar. E prossigo, tentando ser Sol, tentando trazer calor e vida, tentando iluminar. Mais uma vez, eu mais que acredito, eu sei que assim é e assim será. 


Um comentário:

  1. Professora quanta sensibilidade em suas reflexões... continue nos inspirando

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