segunda-feira, 23 de junho de 2014

Carta a um amigo



            Não assisto passivamente às tuas desventuras, como mera espectadora de um drama pessoal. Se não apenas por estimar-te, mas também porque esta história, para mim, soa bastante familiar.
            Lembro-me de quando todas aquelas cogitações e ansiedades que te acompanharam desde a adolescência cobraram, pela primeira vez, de ti, uma tomada de posição. Começaste a peregrinar por todas a religiões que se apresentaram como possibilidade de resposta. Mas, pelo contrário, nenhuma delas sequer permitiu perguntas. Apresentaram-te “verdades absolutas” condensadas em dogmas precários, que não resistiriam à mais débil análise crítica. Não conseguiste calar teu espírito indagador da Verdade, malgrado o tentasses, sei-o bem. Percebi que sofreste por não conseguir, como os demais, satisfazer-te como o que te ofereciam, pois a tua consciência recusou-se a retroceder para acomodar-se em “verdades” fáceis.
            Sei que essa experiência te tocou tão profundamente que descreste e fechaste os olhos para qualquer nova investida no campo espiritual. Contudo, as cobranças de dentro de ti não cessavam.
            Tentaste, então, ir ao encontro do que essa tua voz íntima exigia, ajudando o teu próximo como te era possível: materialmente. Primeiro, de forma direta; depois, quando percebeste que este procedimento não surtia efeitos senão a curtíssimo prazo, partiste para o engajamento em movimentos sociais e políticos que lutassem por garantir, a nível permanente, a assistência e a vida digna de que essas pessoas careciam. Porém, não tardaste em  sentir que ainda não era o caminho.
            Ainda me recordo do desânimo estampado nos teus olhos quando notaste que, apesar de todo empenho, dedicação e boa vontade investidos nessa tarefa, andavas em círculos... Entendi que particularmente o que mais te magoava era vislumbrar, no ápice da batalha, nos teus companheiros e em ti mesmo, as mesmas deformações de caráter e fragilidades que vias em teu inimigo. Neste momento, tua batalha estava perdida, pois caía inexoravelmente no vazio.
            Olho para ti agora e vejo, por um lado, o sarcasmo e a amargura de quem já não crê me mais nada; por outro lado, o sofrimento de quem tenta calar, dentro de si, algo que julga como uma “anomalia” que o impede de sentir-se igual aos demais. Vejo que declinas cada vez mais para a passividade.   Sinto morrerem teus sonhos.
            Quisera te ajudar, porque também percorri, passo a passo, essa mesma trajetória; também duvidei que houvesse um caminho; no momento em que assistia, inerte, à lenta sangria de toda a minha energia vital, ele foi colocado diante de mim. Ainda sinto a euforia que esta descoberta provocou; retomo, já empoeirados, meus velhos ideais altruísticos; “arregaço as mangas” para pôr em ordem a minha casa física e emocional para torná-las veículo adequado a abrigar meu Espírito e as transformações que Ele há de processar em mim e através de mim...
            Contudo, apesar dos grandes acontecimentos que têm lugar no meu mundo, prostro-me diante do teu olhar frio e inexpressivo. Crês acertadamente, talvez inspirado pela tua intuição, que a simples análise combinatória dos valores e  signos lingüísticos que já conheces, mesmo que tentada à exaustão, não te levará a nenhum lugar novo.  O círculo vicioso de palavras, das quais lançamos mão tão profusa quanto inadequadamente, agora nos aprisiona. Nunca tive tanto a te dizer e, no entanto, permaneço muda e impotente.
            De repente, uma idéia nova me socorre: percebo que há formas e formas de se “dizer” algo; que este Fogo interno que te direcionou e deu o tom de toda a tua vida não precisou, para isso, dirigir-te sequer uma única palavra... e nenhuma voz jamais se fez ouvir de maneira tão eloqüente.
            Procuro, então, meticulosamente, transformar a minha vida, cumprir com mais celeridade as etapas necessárias ao meu desenvolvimento, não só por ser este o meu dever, mas também para transformá-lo em “voz” contundente que chegue até a ti e te fale daquilo que tanto precisas saber.
            Por isso, olha para mim e tenta entender quando reúno forças e me disciplino, quando renego, com humildade, valores que até então defendia com ênfase; não entendas tudo isso como uma pantomima infantil que represento diante de teus olhos perplexos; faço-o também por ti.


            Renovo minhas energias e, por vezes, posso até me embaralhar no meu entusiasmo de simples aprendiz, mas podes crer sem receio que o que faço é tentar erguer novos veículos de expressão para te convencer, fazer-te reabilitar a velha e essencial, embora tão deformada, mensagem do Amor Universal.

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