terça-feira, 10 de junho de 2014

Aprendendo Política com Platão




Um dos mais conhecidos mitos do filósofo Platão, depois, evidentemente, do muito comentado “mito da caverna”, é este do pastor de ovelhas da região da Lidia, de nome Giges, conhecido em suas terras por sua honestidade e moral “inatacáveis”. Porém, o mesmo, ao encontrar, nos pastos, um anel que tinha o poder de torná-lo invisível, deixou que sua “moral”, que não passava de fachada para construir uma reputação, fosse inteiramente por terra, praticando todo tipo de tramoias e falsidades.
Não vou aqui repetir a questão clássica, que se coloca sempre que alguém conta esta história para outro: “- O que faria você, se tivesse o anel de Giges em sua mão?” Se for do interesse do leitor, que repita, reservadamente, para si mesmo, essa delicada e antiga pergunta, preparado para confrontar as nem sempre fáceis respostas. Da minha parte, gostaria de prosseguir com o argumento platônico, pois o que vem depois é de igual importância e interesse.
Platão faz um novo questionamento, na sequência desta ideia: e se Giges, ao usar seu anel de invisibilidade, permanecesse tão honesto quanto o era quando ainda visível, e os demais cidadãos viessem a saber disso? O que diriam? Segundo o filósofo, o comentário geral seria elogioso, pois todos temeriam ser vítimas deste inusitado “dom” de Giges, mas, ocultamente, de si para consigo, muitos diriam: “Que estúpido! Como desperdiça uma oportunidade dessas? Ah, se fosse comigo, seria diferente!”
Em suma, ele conclui: as pessoas, na sua maioria, não amam a conduta justa, a justiça em si. Estabelecem uma espécie de “pacto social” em torno dela, para não terem seus interesses prejudicados: “Eu não leso os seus direitos, e você não lesa os meus.” Mas, se houvesse uma forma de fazê-lo com a garantia da impunidade... que ingênuo, o Giges!
Assim, nossa ética seria de coerção, e não de convicção, pois, sem amor à justiça, não há princípios, aquilo que fazemos por amor e respeito inclusive a nós mesmos, e não apenas pela opinião do meio. Desde a infância, recebemos ameaças e prêmios para cumprirmos nossas obrigações mais triviais e básicas: se não obedecer, papai do céu castiga; se não comer a salada, papai noel não traz presente; se não estudar, vai perder sua mesada... Quantos acabam, por fim, amando a obediência, a salada, o estudo? Ou apenas o que se pode obter através deles? E se pudermos contornar estes ”contratempos” e irmos direto aos nossos interesses? Quantos não o aceitariam?
Lamento concluir desta forma, mas somos obrigados a concordar que, sem desenvolver um verdadeiro amor pela condição humana e os valores que a caracterizam, estamos adestrando, e não educando; é uma ética superficial e vulnerável, que não resiste a  situações de exceção. E os campos do mundo estão lotados de “aneis de Giges” que podem ser encontrados, muitas vezes, por líderes nem sempre muito leais ou atentos ao bem de seu “rebanho”. De uma forma ou de outra, os homens sempre dispendem suas vidas correndo atrás daquilo que amam, e o amor aos valores humanos, se real, dispensa uma vigilância perpétua (e ineficaz) sobre o comportamento alheio, sobretudo daqueles que lideram. Desperte a consciência humana, e ela será um vigilante implacável e incessante, vigiando desde dentro, de um ponto onde nada se pode omitir. 
Mas se isso lhe parece utopia, continuemos “educando” apenas para despertar habilidades, sem saber a quê ou a quem elas servirão depois. Se forem empregadas na direção errada... punimos! Só tomando cuidado para verificar se, em alguma altura, quem pune não se torna aliado de quem erra, pois, quando não há em nós a grande referência ante a qual todas as coisas podem ser avaliadas como certas ou erradas, que são os valores humanos atemporais, aqueles que nos conferem a dignidade humana... como poderemos julgar?

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