segunda-feira, 23 de junho de 2014

A vida real e a ficção

Numa destas noites em que a insônia nos ataca pelo meio da madrugada e nossa cabeça fica povoada de imagens rápidas, umas vezes sem sentido, e outras, nem tanto, me veio uma interessante cena de ficção à mente. Assim foi e assim gostaria de transmiti-lo: como uma imaginativa ficção mental, sem pretensões a verdades ou revelações, mas a simples imagens que se prestam a reflexões interessantes.
Imaginei a mim mesma passeando por um daqueles enormes suportes de roupa, tipo “araras’, que existem em camarins de artistas. Só que esse era imensamente grande (eu não alcançava ver seu fim), e com todos os cabides ocupados. Ao passar por um espelho, neste grande camarim, constatei, surpresa, que eu não conseguia identificar nitidamente os traços do meu rosto. Só aí foi que percebi que todas aquelas “roupas” penduradas nos cabides eram os inúmeros corpos (e rostos!) que utilizei, ao longo de infinitas experiências, em quase infinitas vidas. Percebi que o “eu”, ali, era minha Alma, pura, limpa, sem nomes ou formas passageiras...
Passei novamente ao lado da arara de “roupas”, agora contemplando de perto aqueles rostos: alguns sofridos, alguns serenos, mas todos eles meus velhos conhecidos; todos eles, rostos com que, por milhares de vezes, mirei o espelho da vida e declarei: este sou eu.
Mil perguntas me vieram da contemplação destas “vestimentas”: quais foram os sonhos de cada uma delas? Será que alguma sonhou... comigo? ou apenas quis chamar para si todos os méritos e atenções, ansiosas por uma eternidade que jamais teriam? Quantos dos sofrimentos que marcam seus rostos não vieram desta busca insensata e fadada ao fracasso? Quantos sofrimentos foram válidos, e quantos em vão? quantos lhes deram a oportunidade , ainda que por um fugaz relance, de me perceberem ou lembrarem de mim?
Elas me amaram? Amaram a alguém? A si próprias? Não saberia dizer. Iludidas pelo espelho, fundamentadas numa identidade tão tênue e superficial... como poderiam desenvolver sentimentos profundos?
E eu... as amei? Olhando-as assim, em perspectiva, todas me despertam grande compaixão, por suas expectativas frustradas, suas buscas desesperadas e nem sempre bem sucedidas por respostas, seus apegos e perdas constantes, sua caminhada inexorável em direção a uma porta assustadora, onde se deixa “tudo” e não se vislumbra o que restará, do outro lado...
Mas algumas, sim, me evocam amor. Aquelas que me buscaram e encontraram (eu as esperava ansiosamente!) e aprenderam a dialogar comigo e a me servir, no palco que lhes coube viver. Juntas, compomos e executamos belos espetáculos, neste mesmo palco, e elas, humildes, não quiseram tomar os frutos deste esforço para a glória de seus fugazes nomes. Não foram sempre geniais, estas minhas “filhas diletas”, algumas foram mesmo muito simples; o mais das vezes, apenas devotadas servidoras, que me permitiram imprimir meus passos no mundo, e se realizaram e foram plenas assim, ao cumprirem bem seu papel. Estas, eu as guardo comigo; tiveram sua dose de realização e felicidade e encontraram sua merecida imortalidade em meu coração. Pelo contrário, as que mais pensaram e serviram a si próprias, na ânsia por permanecerem... foram as que mais rapidamente foram esquecidas, mudas e tristes, em seus cabides....
Por um instante, porém, me atinge como um raio a surpreendente ideia de que talvez também eu, Alma, seja igualmente apenas uma “roupa”, uma em meio a infinitas outras, penduradas em cabides, ocasionalmente examinada por um atento Protagonista, Uno e Absoluto, que observaria, cuidadoso e pensativo, todas as suas máscaras no mundo da manifestação, fazendo conjecturas da mesma natureza que as minhas, em relação a minhas vestimentas... Destes muitos raios-Alma que partiram de um mesmo centro luminoso, quais foram fieis portadoras de sua Luz, com a menor obstrução e desvio...? quais o representaram dignamente, foram seus dígitos, nos quatro, ou oito, ou infinitos cantos do Universo? Quais cumpriram fielmente com sua natureza de luz, trazendo visão, discernimento, calor...Vida, em sua mais pura e elevada expressão?
Fico imaginando se a mais humilde das minhas vestimentas, pendurada agora em um esquecido cabide, na periferia e penumbra da criação, tão distante deste Sol central... se ela tivesse se percebido como um raio, percebesse a quem servia, tivesse algum vislumbre deste Centro... como teria sido sua vida? se ela visualizasse essa imagem: um único Sol e seus inúmeros raios, qual o espaço para a separatividade? para o egoísmo? e a crueldade e a violência? luz contra luz? qual a necessidade de leis e penalidades para proteger a luz da luz? qual a dúvida sobre como encontrar a  realização... e a eternidade?
Despertei deste meu “devaneio da madrugada” com o Sol banhando meu rosto... uma curiosa “coincidência”, um ponto de encontro entre o sonho e a realidade... embora sinta que sempre levarei comigo a dúvida, que se inclina intuitivamente para uma resposta: qual dos dois mundos é o sonho? qual é a realidade?

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