quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Utilidade da Filosofia



Imaginando como descrever o potencial de transformações que a Filosofia possui, lembrei-me de um antigo exemplo meu, nascido em sala de aula e já muito repetido, por mim e por outros, mas que, até onde eu saiba, ainda não havia sido descrito em um texto.

Quando dava minha aula explicativa sobre a Filosofia que praticamos, voltada para a construção do homem e para a transformação da sociedade, um jovenzinho, aparentemente bastante ansioso, disparou uma indagação ousada e desafiadora, embora não muito original: ”Você quer dizer que vamos ajudar a humanidade ensinando Filosofia? Que coisa mais teórica e inútil! Muito melhor seria sairmos, todos nós, às ruas, distribuindo alimentos, remédios e outras coisas mais necessárias!”

Curiosa a arte da pedagogia, quando a amamos: ao invés de despertar a nossa ira, o desafio provoca a  nossa imaginação, e posso dizer que, em situações como esta, nasceram meus melhores exemplos e reflexões. De maneira bem tranquila, propus a ele o seguinte exercício de imaginação: há uma falha na telha e uma infiltração no forro desta sala em que estamos, e uma insistente goteira provoca uma poça d’água bem no meio da sala. De acordo com a reação ante este simples e banal fato, podemos dividir a humanidade em três grupos...

Primeiro grupo: os “alienados”. São um tipo curioso: não veem nada senão aquilo que lhes traz vantagens pessoais e imediatas. Em relação a todas as outras coisas (inclusive poças d’água), pisoteiam-nas de forma, quando não inconsciente, pelo menos indiferente. “Poça d’água? Aaah... problema dos donos desta escola!” Se a poça ocupa um espaço público: “- Problema do Governo! Eu pago meus impostos...” E sai, alegremente e sem culpas, deixando suas marcas de lama pelo mundo.

Segundo grupo: os “bem intencionados”. Como o próprio nome diz, têm boa vontade e costumam reagir rápido: “ – Sujeira? Deixa comigo: pano, rodo e detergente, um pouco de exercício físico, e... lá se vai ela!” É fato: lá se vai... e lá se vem, pois a goteira não cessa. Nem cessa o trânsito intenso de alienados com sapato sujo. E aí, começa o drama interminável: limpa/suja, limpa/suja, limpa/suja... Acontece que nem o pano, nem o rodo, nem o detergente ou mesmo o próprio bem intencionado são eternos. Um dia, o esforço cessará, e o mal estará de volta em minutos. Podemos deduzir, então, que há boa intenção, mas muito pouca eficácia.

E o terceiro grupo? Aqueles que se intitulam “filósofos”, ou seja, buscadores da sabedoria, não descartam a importância de limpar o chão, pois não há como ver com clareza em meio a tanto caos. Mas, realizada esta tarefa, farão imediatamente a pergunta crucial: “- Qual é a causa deste problema?”. Olharão, então, para cima e detectarão a raiz da dificuldade. Próximo passo: consertar telha e forro!  Finda a causa, findo o efeito, ou seja, ação bem intencionada e eficaz.

“Só o ingênuo acredita que as causas da miséria física estão no plano físico; as causas da miséria física sempre estiveram e estarão na miséria moral, psicológica e espiritual do homem.” Ou seja, há mesmo que levantar a cabeça e “olhar para cima” para encontrar as causas. Você acredita que a fome é devida à falta de alimentos ou de fraternidade? e a pobreza? Deve-se à falta de bens materiais ou de honestidade? E a ignorância e a maldade? É falta de acesso aos bancos de escola ou de formação moral para usar estes conhecimentos de forma humana e não egoísta?

Como diria o sábio Arquimedes: Eureka! Encontrei! Torna-se óbvio que necessitamos mesmo de Filosofia para construir homens! E necessitamos mesmo de homens de verdade para mudar o mundo! E devo ser eu o exemplo de que isso é possível, pois eu sou o mundo que me corresponde mudar agora. Todas as nossas reflexões, ao longo deste texto, foram inspiradas nos conhecimentos de alguns homens, sempre poucos, na história, que ousaram dar exemplo de uma condição humana digna através de suas obras e de suas vidas; ou seja, foram filósofos, com boas intenções e eficazes até nossos dias. Não é um bom desafio? Talvez um dos maiores e mais nobres. Sinta-se desafiado!

2 comentários:

  1. Excelente história... Leva-nos a refletir o quanto perdemos tempo em remediar os efeitos sem identificar as reais causas do sofrimento humano...

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  2. Excelente história... Leva-nos a refletir o quanto perdemos tempo em remediar os efeitos sem identificar as reais causas do sofrimento humano...

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