sexta-feira, 13 de junho de 2014

Amor e pedras preciosas

Já conto cinco décadas de vida e, talvez, uma das experiências mais fantásticas que me coube viver e que gostaria de tentar transmitir é a de ter provado um pouquinho de algo que considero parecido ou um tantinho próximo a um amor verdadeiro. E posso garantir que ele tem muito pouco a ver com nossas expectativas comuns, de algo que traga vantagens ou satisfações pessoais de curto prazo, como se vivêssemos num enorme mercado de capitais emocional, onde tudo é medido por custo/benefício e prazos de retorno, em bom economês.
Definitivamente, não dá para nem esboçar alguma compreensão do amor com estes conceitos. Em primeiro lugar, ele não é dual, não participa do nosso cotidiano e bem conhecido jogo de “toma-lá-dá-cá” que rege quase tudo em nossa vida comum. Não obedece a prazos de tempo, uma vez que, sempre misterioso, ele não se renova, mas nos renova, à medida que o vivemos, direcionando-nos para a ideia do Bem, fonte de todo Amor que existe e existirá. Não se intensifica ou arrefece com proximidades ou distâncias, pois sua geografia não pertence a um mundo convencional. Com o que, então, eu poderia compará-lo?
Seria algo como uma rocha, de dureza extraordinária. Uma pepita de um mineral denso e impossível de fragmentar, encravada, sabe-se lá como, bem dentro do nosso peito. Nem sempre prazeroso, nem sempre doloroso, mas sempre, sempre inexpugnável. Não negocia, não claudica, não hesita, não duvida, não aceita argumentos (nem os ouve!). É aguerrido e não conhece caminhos de volta. Se você disser ao Amor: “Eu te separarei do teu ser amado por mil anos!”, ele não desistirá; aceitará a espera, mas lutará para que sejam apenas 999 anos, ou 998 e meio... Lutará arduamente, com toda a garra do mundo; regateará com os deuses de todos os panteões para ganhar um ano, um mês, um dia a menos... Mas nunca desistirá, nem considerará esta possibilidade: ela simplesmente não existe para ele, não participa da sua lógica. Como desistir? De si mesmo? Da essência da Vida? De Ser? Depois de já ter experimentado deste Ser?
Os antigos em geral possuíam minerais de extrema dureza como atributos dos deuses e semideuses, em seus panteões. Desde o Jade dos Chineses e Maias, o lápis-lazúli e a esmeralda dos egípcios, o diamante, Vajra ou Dorje dos budistas indianos e tibetanos... Uma rocha, sempre; um diorite maciço, encravado em seus corações divinos. Talvez porque seja próprio do mundo espiritual jamais se dividir, ao contrário da matéria, que é sempre divisível, estas maciças pedras guardem um pouco do simbolismo dos atributos espirituais: o coração dos céus projetado, como símbolo, no coração da terra.
Enfim, do muito que deve haver para se dizer sobre o verdadeiro amor, eu conheço muito pouco. Mas, como em qualquer mineral precioso, um pequeno fragmento já é dotado de considerável valor. E é este pequeno grão de valor que eu ofereço, como um singelo mas especial segredo que gostaria de compartilhar: o verdadeiro amor não se compromete a oferecer prazer, mas oferece algo de Unidade, incorruptível e duradoura: não é condicional nem condicionável; não se submete ao tempo nem se propõe dualidades ou alternativas. Desconhece o tempo limitado e aquilo que se fragmenta e deixa de ser.
O amor, definitivamente, é parte de um código de leis de um território onde as limitações não existem; se você quer experimentar dele, deve querer ardentemente pertencer a este mundo, pois o amor é uma espécie de cidadania espiritual buscada com toda a intensidade e com o mínimo de egoísmo, pois ele não oferece nada; antes, exige o melhor de nós como oferenda. E uma oferenda sem possibilidade de devolução ou perspectivas de dividendos de qualquer espécie.

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