quarta-feira, 11 de junho de 2014

PETER PAN



Conheci, por estes dias, a pequena animação de Aidan Gibbons intitulada “O Piano”, muito bonita e digna de se ver, conforme as incontáveis curtidas e compartilhamentos via internet comprovam.
Porém, o que me chamou a atenção nesta animação, que coincide com o que já vinha pensando nos últimos tempos, foi a necessidade de criarmos um novo significado para a  chamada “síndrome de Peter Pan”, maneira como alguns psicoterapeutas pelo mundo afora intitulam o comportamento daqueles imaturos contumazes que se negam a crescer. Acho que há um fenômeno menos patológico e mais belo que atinge pessoas maduras que mereceria receber um nome parecido; não síndrome, mas talvez “ciclo de Peter Pan”, fase esta em que necessitamos mais que urgentemente encontrar uma “terra do nunca”, um lugar além do tempo que redima a vida da arbitrariedade e que dê uma ordem e um sentido a toda a experiência que o tempo nos deu e, depois, tentou tomar de nós. Esse “fio condutor”, chamado pelos hindus de “sutratma”, é muito bem representado, no vídeo, pela belíssima música ao piano, que conduz a  breve narrativa sem palavras até a junção das duas pontas da vida, como uma síntese circular, ao final.
É como se nós, os que estamos no “ciclo de Peter Pan”, estivéssemos tentando não perder nossa sombra-memória no mundo e pedindo ajuda a uma Wendy-consciência para costurar esta sombra a nós, de maneira que não rompa mais. Esse Peter Pan, espiritual e atemporal, unido a uma consciência que cresceu ao longo da vida, Wendy, e que, agora, nos ajuda a entender e resgatar nossa sombra.
Sem saber tocar piano como acompanhamento (o que seria de uma ajuda fantástica!), eu tenho, em minhas reflexões, andado também pela terra do nunca; às vezes, no meio da rua, no meio do trânsito, eu me vejo simultaneamente no tempo e fora dele. O rosto das pessoas, suas expressões, seus sons, os sons do mundo, tudo toma um sentido, como uma sinfonia. Tudo me soa como um grande apelo, uma espécie de lamento de solidão, uma imensa saudade de si mesmos, uma imensa sede de sentido. Todas as buscas, todas as direções, como a busca inconsciente de uma mesma direção: identidade, pertencimento, sentido.
Lembro de um momento da minha infância, brincando com os tijolinhos do “jogo do construtor”, com o qual fazia casinhas; fui perdendo as peças do jogo, com o tempo, e tendo que fazer construções cada vez mais simples, com os tijolos que ainda estavam disponíveis. É como se hoje me restasse apenas um tijolinho, e nele, tivesse que concentrar a experiência de todas as formas que ergui e desmontei.
O que há em comum entre as receitas guardadas da avó, os desenhos dos filhos, a corrida nas ruas debaixo de chuva ao lado de quem se ama, as mãos bem apertadas, os abraços bem dados, as lágrimas, os medos, as ousadias? E os sonhos que fizeram voar, que nem pó de pirlimpimpim? E as dúvidas e egoísmos “piratas” que invadiram nossos territórios mais sagrados e nos imobilizaram com seus ”ganchos”? Chega um momento em que tudo de que lembramos em nossa vida faz tanto sentido quanto se fossem os passos de uma coreografia: para frente, para trás, girar de novo... nada poderia faltar. Na verdade, todos estes movimentos buscavam o centro do salão, o centro da circunferência da vida, o centro de nós mesmos... o sentido.
Dizem que Einstein teria falado, alguma vez: “Eu queria entender os pensamentos de Deus...” Sim, se ele disse isso de fato, com certeza Einstein também vivia o ciclo de Peter Pan. Eu, que estou longe de ser tão boa pensadora, queria entender pelo menos os movimentos de Deus, ou melhor, a sombra deles na minha vida. Queria acertar o passo, enfim, para chamá-lo ao palco e bailar com Ele. Percebo agora que tudo que fiz e deixei de fazer foi, no fundo, apenas e nada mais do que uma tentativa de acertar este passo. “- Danço melhor agora? Piso menos no Seu pé ?” Eu perguntaria. E Ele e eu riríamos, dando voltas pelo salão, porque, afinal de contas, isso não tem tanta importância. O que vai valer de fato, eu penso, o que vai realmente ter importância e definir a vida vai ser o quanto essa Wendy-consciência tenha crescido, para que possa se aproximar de fininho, com linha, agulha e dedal, e cumprir a grande missão: costurar de novo esse grande Peter Pan à sua pequena sombra, que sou eu.

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