domingo, 1 de junho de 2014

Um sonho...


Um dia destes, ou melhor, uma noite destas, de sono agitado, tive um longo sonho, do qual, na sua maior parte, não restaram na memória mais do que poucos e confusos fragmentos. Mas uma parte dele, pouco mais de uma cena, permaneceu intacta, inclusive com as emoções que ela evocou, indo e vindo por vários dias na minha memória, até que hoje, por fim, dobrei meu ceticismo e me convenci de que havia ali algo de especial a ser melhor examinado. Steven Pressfield, escritor que muito admiro, declara, em sua pequena obra-prima “A Guerra da Arte”, que sonhos deste tipo não devem ser passados adiante, pois são uma intimidade com nossa alma, a menos que possam ser úteis para o crescimento de alguém. Com essa esperança, resolvi compartilhá-lo; espero que te seja útil...
Nada havia de especial no sonho; era uma cena do passado, mas eu já era da idade que tenho hoje, numa mistura de dois tempos. Só havia dois personagens: eu e meu pai; aparentemente, pelo que entendi, ele se mudara para uma cidade do interior litorânea, bem pequena e pobre, e comprara um muito antigo parque de diversões para ganhar dinheiro e me sustentar. Sentada em algum lugar, eu via o seu duro trabalho de reformar aquele velho e abandonado parquinho: limpava carrinho por carrinho de um brinquedo, e depois, rodava as cadeirinhas de uma velha roda gigante e limpava rigorosa e detalhadamente, uma a uma.
Seu rosto era sério e concentrado, talvez com uma leve gota de melancolia. Não falava comigo, nem parecia me notar; apenas trabalhava. Também sem falar uma palavra, eu o observava e sofria. Dizia a mim mesma (parecia ser a mim mesma, pois não via mais ninguém por ali), que eu já deveria ter conquistado meu sustento para não obrigar meu pai a trabalhar daquela forma, pois já era “grande” o suficiente para isso. Culpava-me doloridamente por decepcioná-lo, por fazê-lo sofrer.
Acordei impactada e me recusei a psicologismos baratos; seriam uma profanação. Pelo contrário, de alguma forma, eu sentia que já estava tudo muito claro e bem explicado naquele sonho. Aquele homem usava o rosto do meu pai, mas tinha apenas o rosto dele; o escritor Walter Otto, em seu livro "Teofania", dizia que o Sagrado sempre se apresenta ao homem com um rosto que lhe permita reconhecê-lo, como alguém que educa uma criança e não quer assustá-la. A sobriedade e dignidade daquele homem, sua grandeza... Não era simplesmente a de um homem. Não, aquele não era meu pai físico, mas era um Pai...
Era um Pai que reconstruía brinquedos antigos, porque reconhecia, resignado, que eu ainda necessitava deles para me sustentar; ainda necessitava “brincar”. Meu mundo ainda era aquele; era cedo demais para destruí-lo. Talvez ele os tenha deixado para trás, em algum momento, imaginando que eu crescera, e agora, enfrentava a dura realidade, dura para nós dois. Será que meu Pai esperara que eu crescesse mais do que eu podia? Será que eu teria podido crescer mais e, ao não fazê-lo, desapontei as expectativas do meu Pai?
Nada daquilo parecia muito lógico; apesar da cena triste e amarelada de cartão postal antigo, com uma mancha de mar ao fundo, apesar do (ou graças ao) silêncio, não havia dúvidas de que Ele me amava, e de que reconstruiria tempo, espaço, um mundo inteiro para me proporcionar a experiência de que eu necessitasse para crescer.
Porém, uma coisa é absolutamente certa: o que eu mais desejava naquele momento, a única coisa que aliviaria a esmagadora dor que eu sentia seria honrá-lo como Pai e realizar seus sonhos para mim. Não havia dúvidas de que a felicidade se resumia só a isso. No entanto, quando eu desperto... Ainda há tanta imprecisão e dúvida para saber o que realmente é a felicidade!
Talvez este nosso tempo seja um tempo de limpar. Tudo o que nos faz esquecermos dos sonhos do nosso Pai, que são nossos próprios sonhos mais profundos, é excesso, e deve urgentemente ser limpo. Talvez, se nós não nos lamentarmos tanto e formos simplesmente limpar junto com Ele, talvez... Quem sabe, ao final, já não queiramos mais esses brinquedos para nós? Quem sabe esse esforço de purificação não nos faça crescer?

Pode ser que, então, este cartão postal amarelado do que já passou, mais limpo, com menos manchas amarelas, fique para trás, e Ele pegue forte em nossa mão e nos conduza para um futuro de gente grande, que é o que Ele sonha para nós e para todos os seus filhos. Se você acredita em sonhos, eu compartilho meu sonho contigo, como uma criança que divide com o amiguinho o pequeno doce que tem em mãos. Ainda que um quase nada, uma meia balinha, permita-se prová-lo agora, saboreá-lo por um momento e sentir e guardar para sempre sua doçura... 



2 comentários:

  1. Quanta generosidade, professora! Compartilhar esse tão delicado momento de expressão da sua alma...
    Grata.

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