terça-feira, 3 de junho de 2014

Quando ela se foi

Quando ela se foi

Ela era uma linda gatinha, de apenas seis meses. Brincávamos muito, e ela me fazia sentir mais criança que ela mesma. Quando a levei para castrar, pensei:  “-Ficará enjoadinha e eu a mimarei por alguns dias.” O telefonema dizendo que ela não tinha resistido e faleceu me feriu como um golpe, aquele das coisas duras da vida, quando não esperamos por elas, e se tornam ainda mais duras pelo fator da surpresa.

Ela chegou num momento muito especial para mim; era mais que um animal de estimação: era encanto, era alegria, era pureza. Era o focinho mais molhado do universo, ao encostar no meu nariz, ato mágico que levava embora todas as tristezas. Dois olhos enormes, azuis, quase grudados aos meus, indagavam, desafiadores: travessuras! Topa? E a vida inteira se convertia numa gigante possibilidade de travessuras.

Mas ela se foi, e eu cheguei em casa, desolada e sozinha, com uma caixa de gatos vazia na mão. Agora, assimilar no coração o amor a ela, agradecer e continuar vivendo. Usei o meu velho truque de sempre, ensinado por um mestre maravilhoso, um dos presentes mais eficazes já recebidos: trabalho. A bicicleta se equilibra no movimento.

Havia grandes queijos curados, em cima da geladeira, esperando pelo conserto do processador ou por um ralador bem disposto. Neste momento, o pesado e repetitivo trabalho me apareceu como a melhor oportunidade que já existiu.. Alinhei ralador, bandeja, queijos, e comecei, com ritmo e determinação. Cuidava para as lagrimas não se misturarem com o queijo. Quando o braço doía, jogava as dores do coração todas nele. Braço dói pouco, e a gente leva bem.

Como um carrossel, foram passando pela minha mente , as coisas que quis conquistar, e as que conquistei e pensei ter perdido. Ralei-as todas. Ralei mágoas e orgulhos feridos, Aliás, as mágoas, ralei-as ainda com maior determinação. As ilusões, as mentiras da minha mente... pensar que a vida se vai, pensar que se perde a beleza e as coisas sagradas da vida? Ralo nelas!

Agora, o bendito queijo ralado, que cresceu como uma montanha à minha frente,se converteu numa montanha de esperanças e de fé. As lágrimas também foram raladas, e eu, forte e renovada, prossigo. Vi a noite nascer, por meio das frestas do ralador, e vi estrelas surgirem. Estou de pé, e eu sou esperança, fé e gratidão. Renasci.

Agradecer é necessário, pois meu coração, que era dor, agora, transborda só em graça. Agradeço aos mestres, ao trabalho, à vida, À pureza dos gatos e à resistência dos queijos curados, capazes de despertar tanta resistência em nós. E ao Ser que há em mim, que é um grande processador, capaz de transformar em luz a morte e a vida, a alegria e a dor. E aqui estou, dedos ralados, alma inteira e agradecida, pronta, de novo, para outra jornada. Compartilho essa pequena experiência com a esperança de que meu segredo, tão preciosamente presenteado, possa ser passado para frente e possa ser, talvez, útil para você. Não demanda muita coisa: só um bom ralador, e uma vontade grande, enorme, de apostar na vida e de integrar a dor.

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