quarta-feira, 18 de junho de 2014

Para aqueles que contemplam a morte...


O que dizer de um assunto tão difícil e delicado, que parece esgotar as palavras? A morte, embora, em teoria, digam ser tão natural quanto a vida, parece absurda quando vemos inertes, diante de nós, aqueles que amamos. Curiosa contradição, pois o amor não morre junto, não se detém frente a essa misteriosa barreira; ou seja, a morte nada pode contra o amor, que reclama, mergulhado em dores e indagações, por seu legítimo destinatário. Não adianta; não há palavras; o Amor domina a morte, mas não domina as palavras e, portanto, não sabe ensinar à mente o caminho para fazê-lo.
Sempre se soube que só se vence a morte ao encontrar algo imortal em nós. E mais, ao nos identificarmos com este algo, de tal forma que nos venha a segurança e a paz de quem não compreende o adeus, mas apenas um “até mais”. Talvez a resposta esteja na fonte poderosa deste amor rebelde que vive em nós, do desafiador Amor, que se curva sobre a morte, e até além, e se eterniza. Sempre nos falam do eterno, de Deus... como encontrá-lo de fato neste instante, a ponto de nos colocarmos de pé frente as tempestades do paradoxo e da dor? No passado mais remoto e mais recente, o homem sempre se vestiu com o nome do divino para enfrentar a incógnita e o Mistério: quer seja com as máscaras de Dionísios, no teatro grego, quer com a proteção da nave Apolo XI, nas missões espaciais. Talvez não haja, porém, missão mais misteriosa do que desvendar o sentido da finitude da vida humana; como resguardar-se com o rosto do divino, neste momento?
Percorrendo o fio da memória através daquilo que tenho, a minha vida, lembro-me de um dia em que eu consegui ser tão íntegra a ponto de deixar para trás qualquer interesse em nome da verdade; algo em mim dizia: “Você é louca!”, mas algo também dizia: “Você é humana!”, e havia algo de glória nesta segunda voz. Um dia, eu pude viver a experiência de ser tão fraterna a ponto de presentear grande parte (ou tudo) do que eu tinha e do que eu era, naquele momento, profundamente tocada pela dor de alguém, ou de alguns. Algo em mim se lamentava pela perda daquilo que havia sido entregue... mas algo também bailava e bailava, ao som de uma misteriosa música, que eu nunca soube reproduzir. Qual era a minha Voz? Quem era a máscara? Que era o eu... e o Eu?
Se eu catar as migalhas de Vida no meio da minha vida, talvez eu possa... talvez eu alcance dar o salto além do aparentemente intransponível abismo, e encontrar a Deus como mais do que um Nome: encontrar alguns de seus atributos em mim...encontrá-LO em mim.
São pobres e simples palavras para você, meu desconhecido amigo que me lê, talvez sedento de palavras mais consistentes frente ao tamanho da sua ferida. Mas são motivadas por este mesmo Amor que mede abismos para tentar vencê-los. Portanto, receba-as e, quem sabe, deixe que elas dialoguem com seu próprio Amor e que saltem juntos sobre este Mistério cuja vista não alcança, mas o coração, sim...

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