quinta-feira, 5 de junho de 2014

O tomateiro do fundo do meu quintal


Meu esposo plantou um pé de tomate-cereja no fundo da casa; nada de relevante, horta doméstica, que quase todo o mundo que tem um pedacinho de terreno faz. Nem me dei conta dele, a não ser quando começou a dar frutos (fazemos isso com tantas coisas na vida, não é mesmo?)

Aí sim, por um bom tempo, saboreei seus frutos, recolhi alguns etc. Era farto, e os tomatinhos, muito saborosos. Mas, coisa que eu poderia morrer sem saber, os tomateiros deste tipo têm uma vida relativamente curta; depois de muitos frutos, que chegaram a decorá-lo por inteiro, como uma árvore de Natal (que pena, não tenho foto disso!), um dia, ele começa a secar, e seca por inteiro: caule, ramos, tudo. O nosso, ante nossa desavisada tristeza de horticultores amadores, entrou subitamente nesta fase. “Agora, é esperar secar totalmente e cortar.” Não dá para deixar de lamentar quando a Vida deixar um ser e vai-se embora de uma hora para outra, procurar outros endereços, mas... sem dramas! Era apenas um pé de tomates...

Dias depois, quando abri a janela do meu quarto, que dá para o tomateiro, vi algo muito vermelho pendente de seu esturricado corpo, prestes a ser cortado: tomates? Corri lá para ver: três tomatinhos lindos e vermelhos pendentes de um ramo longo, afastado do caule. Lembrava um braço e uma mão, secos e esquálidos, oferecendo-nos, generosamente... três lindos tomatinhos! Era um último e heroico esforço da vida, naquele ser, para que, antes que a morte prevalecesse,  pudesse presentear ainda, pudesse gerar ainda mais vida.

Não pude deixar de ser solene ante aquele fato tão simples e belo: agradeci profundamente pela lição de vida do Mestre Tomateiro. Aceitei com humildade sua oferta, e contei para ele que eu não era tomateiro, mas também era um ser feito pela natureza para dar frutos, e oferecê-los generosamente. Sabia que ele poderia, de alguma forma, me entender.

Além do mais, eu sofria de uma peculiaridade na minha espécie, que é a filosofia: uma pequena variação na genética da alma humana que nos inclina a refletir sobre tudo, ou tudo o que alcançamos perceber e entender. Contei para ele que nós, os humanos, sofremos de uma praga terrível, chamada egoísmo, que limita e à vezes até contamina nossos frutos. Exigimos tanta coisa antes de dar! Pedimos tanto para aquele que recebe! E se a natureza nos nega toda a água e sol que achamos que merecemos, secamos precocemente, regateando de forma mesquinha com a vida que ela nos deu.

Mostrei a ele meu coração, fértil pelo aprendizado recebido, e me comprometi : quando não houver muita energia-vida em mim, tentarei reunir toda a que tenho para fazer uma última e generosa doação, mostrando que foi vida legítima que passou por aqui: plena, integra e capaz de alimentar corpo e alma, para quem se sente faminto em ambos.

Descanse em paz, Mestre Tomateiro: missão cumprida; saboreie  a paz dos justos, mais doce que seus tomates-cereja, que pertence a  quem cumpre dignamente seu papel. Junto com seus frutos, eu me alimentarei do seu exemplo, e procurarei dar vida até meu último ramo, esforçadamente estendido, como uma oferenda, aos famintos, aos céus e à terra, e como um gesto de gratidão à Vida.

3 comentários:

  1. Adorei a história. Eu também me aventuro a plantar: temperos, morangos, amora, limão e até uma bananeira. Tudo em vasos.
    Estou montando um blog sobre o assunto. Faça uma visita.
    http://vidanomeuquintal.blogspot.com.br/?m=1

    ResponderExcluir
  2. Adorei a história. Eu também me aventuro a plantar: temperos, morangos, amora, limão e até uma bananeira. Tudo em vasos.
    Estou montando um blog sobre o assunto. Faça uma visita.
    http://vidanomeuquintal.blogspot.com.br/?m=1

    ResponderExcluir