segunda-feira, 23 de junho de 2014

Makemake hoje me ensinou

Todos nós temos, eventualmente (ou será “infelizmente” o advérbio mais apropriado?) momentos em que o sábio preceito filosófico de não se deixar afetar pelas circunstâncias vai ruidosamente por terra. Seja porque, por descuido, acumulamos erros que “baixam a guarda” da necessária segurança e confiança em nós mesmos, verdadeira “vigilância montada” que nos protege de muitos invasores desagradáveis, ou porque aquilo que chamamos de “circunstâncias” é um conjunto vivo, dinâmico e bem estrategista, que vive procurando 
brechas na nossa guarda, às vezes com sucesso.
Uma atitude ríspida imprevista, inusitada e aparentemente gratuita, desproporcional a qualquer fator que tenhamos gerado dentro de um limite que nossa memória alcança, e lá vamos para o nocaute: tristeza, dor no coração, uma dor fina e corrosiva, que, se não cuidarmos, desanda para o vulgar terreno da autopiedade. 
Em um dia como esses, um tanto “nocauteante”, voltava para casa, procurando um assunto, um foco mental qualquer que me fizesse parar de pensar em todas aquelas bobagens, passo inicial para cortar a dor, pois a mente cutuca impiedosamente qualquer ferida, com uma morbidez irritante, se não soubermos e pudermos dar um “basta” em sua cantilena repetitiva. Com esta tentativa em mente e sem uma estratégia muito bem delineada, experimentei ler o jornal do dia. Prendi-me numa reportagem, sobre um novo planeta nos limites do sistema solar, para lá de Plutão, um planeta anão, como o próprio Plutão também acabou por ser reclassificado: Makemake. Trata-se de um corpo celeste inferior em tamanho à nossa lua, com temperaturas em torno de 240 graus negativos, nos limites escuros e distantes do sistema solar. Fiquei lá, entretida com Makemake, estranho nome, que descobri ser o nome de um Deus da Fertilidade e criador da humanidade para o povo Rapa Nui, da Ilha de Páscoa. Inesperado encantamento me produziu esta notícia, aparentemente simples e inexpressiva. E encantamento semi-insconsciente, pois nem sabia dizer o que me interessava ali. Até que alguém que amo e que sempre me ensina muito resolveu passar por ali e dar palpites:
- O que você lia com tanta atenção?
Contei-lhe de Makemake, e de meu interesse por ele; só lera esse assunto no jornal, praticamente.
- Um planetinha escuro e gelado, girando no meio do nada... por que te interessou?
Minha própria resposta, meio impulsiva, me surpreendeu:
- Ele parece feliz em ser o que é e fazer o que tem que fazer: girar no meio do nada.
E é fato: Makemake tem um albedo (brilho) muito expressivo, devido à camada de gelo em sua superfície: reflete os poucos raios de luz do Sol que lhe compete receber, e gira regularmente, bem longe do aconchego, da luminosidade e do calor de seu esplêndido Pai celeste. Modernos telescópios precisam de condições especiais para ver que Makemake está lá; desde 2005 procuravam flagrá-lo e só agora lograram alcançar uma imagem. Tão frio e obscuro mundo de Makemake... no meio do nada, recebendo tão pouco, sendo reconhecido por quase ninguém... mas luminoso, ainda assim; sabendo multiplicar a luz que recebe, sabendo manter-se fiel à sua órbita e ao seu centro, o Pai. Distante, mas, ainda assim, Pai...
Guardadas as devidas proporções, tenho recebido mais luz e calor que Makemake; certamente não sei, como ele, reverter esse privilégio em brilho, que é uma forma de compartilhar distribuir à sua volta a luz recebida...compartilhar até mesmo com um bisbilhoteiro telescópio que o observa a uma distância cósmica... 
Algumas vezes, tenho deixado que a escuridão e o frio alterem minha órbita, tirem meu contato com o Centro. Nem sempre lembro de irradiar gratidão e realização pelo Pai que tenho. Em última instância, somos irmãos, eu e Makemake; como irmão mais velho e bem mais experiente, ele soube aproximar-se de mim e aplacar minhas angústias, neste dia; qualquer desprezo ou dor que tente me surpreender, a partir de agora, terá que enfrentar a mim e ao meu Irmão celeste, radiante e humilde, fiel e regular, em sua órbita obscura e fria, “no meio do nada”. Apesar de tão mais próxima do Sol do que você, Makemake, seu brilho, hoje, me atingiu de uma forma muito especial... Grata, muito grata!

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