quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cumplicidade



Esta foto é um flagrante da intimidade de uma rosa ao se abrir, numa manhã. É o momento em que começa a dobrar suas pétalas para trás, expondo e entregando completamente seu coração amarelo-fogo. Perceba que, seja qual for sua cor, uma rosa sempre tem um coração de fogo.
Nem sempre elas o fazem assim; às vezes, murcham ainda em botão. Sempre que isso acontece, eu me sinto um pouco culpada: será que não cortei direito o caule ? muito calor, muito sol ? o astral do ambiente não estava dos melhores, e ela preferiu preservar seu coração? Tive ou não “culpa no cartório”, afinal?
Mas, quando ela desabrocha, também compartilho da Glória deste momento: uma rosa nunca dá seu coração se nós não damos o nosso, primeiro. E se não pressente que  o nosso também é um coração que oculta um pequeno  sol. Ou se não lhe parece que seu grandioso e delicado ato de entrega  vai ser notado e aprendido.
Quando passo por rosas e as vejo assim, esplêndidas e atrevidamente entregues, sou sempre grata; sempre presto atenção para ver os detalhes. Como é mesmo que se deve fazer? Dobrar nossas pétalas para trás, como um cone, e projetar nosso coração para fora e para cima? Fazê-lo arrojadamente, sem medo da morte e da dissolução?
Desta forma, talvez as pétalas murchem e caiam mais rápido, mas seu momento de plenitude compensa todos os riscos; para que durar sem Ser?
Antes que eu me vá, como todos os humanos, que vêm e vão e nem sempre desabrocham, flores instáveis e aflitas, eu queria te contar um segredo, minha rosa, que um cravo me contou há muito tempo. Sei que você deve conhecê-lo tanto quanto eu, ou até mais.
Neste momento, uma manhã luminosa, parece que feita só para vermos  e conversarmos com as rosas, nós duas, equilibradas sobre nossos frágeis caules, frente a frente, eu e você, não somos duas, de fato, mas uma só. Somos postos de resistência da Unidade buscando seu espaço no mundo do múltiplo, lutando contra a ilusão do tempo, contra o egoísmo e a dissolução. Contra o tempo banal que corrói nossa identidade e bloqueia nosso coração. Somos duas frentes de combate...de uma mesma batalha, de uma mesma e única Força real contra muitas sombras poderosas. Eu e você... mais fortes, daqui para frente, graças a este momento único e eterno de cumplicidade, entre céus e terra, entre homens e rosas.


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