segunda-feira, 23 de junho de 2014

CONTAINER





Essa é uma história já não tão nova, e muitas vezes já foi repetida em sala de aula, mas que continua sendo fonte de reflexões para mim; por isso, acabei por querer compartilhá-la em um texto. Há alguns anos, quando eu morava em um prédio de apartamentos, passava casualmente por baixo do mesmo e resolvi depositar um saco de lixo que tinha nas mãos diretamente no container, a poucos passos de distância. 
Fato banal, se eu não tivesse observado algo que me chamou a atenção: em alguns sacos entreabertos, dentro do mesmo container, havia vários álbuns de fotografia de papelão amarelo e branco, daqueles no modelo “Kodak”, muitos mesmo, talvez entre 10 e 20, dentro de dois sacos de lixo. Álbuns aparentemente cheios de fotos.
Contive a insensata curiosidade de mexer neles para folheá-los, mas carreguei comigo esta mesma intrigante curiosidade, talvez até hoje. O que haveria ali? Lembranças de um relacionamento encerrado com certa amargura? Restos da vida de alguém, pouco significativa para a memória de seus descendentes? Por que não interessava a ninguém lembrar daquele expressivo pedaço de vida contido em quase vinte carregados álbuns de fotos?
Imaginei que os personagens retratados nas fotos, quando as tiraram, devem ter julgado, é óbvio, que era importante gravar e relembrar aqueles momentos. Ainda mais em um tempo em que era necessário levar os filmes para revelar, colocá-los em álbuns... Nossas modernas e rápidas fotos digitais admitem um pouco mais de inconsequência. Mas ali houve uma apreciação prolongada no tempo sobre a relevância daqueles momentos. Claro que, quem pensava assim, não pensa mais... Ou não existe mais, fisicamente.  E nada daquilo vale mais nada: apenas faz volume em um container.
Isso criou uma tipologia de fatos na minha vida: “Categoria Container”. Nestas, eu coloco não apenas as dores, muitas vindas do meu orgulho ferido, do meu tempo mal empregado, da minha personalidade que reluta em admitir sua própria insignificância, mas também as alegrias banais e inconsequentes, as “astraladas” momentâneas que não geraram nenhum estado de consciência já não digo construtivo, mas pelo menos humano em mim ou nos coadjuvantes da cena. Como, por exemplo,  a pose desajeitada ante a Esfinge do Egito, em que minha imagem ocupava 70% do espaço, e aquele imponente colosso se espremia em apenas 30%... Só para lembrar aos meus descendentes que, um dia, eu achei mais importante olharem para mim do que para a Esfinge do Egito... E tantas, tantas outras coisas, concretizadas em fotos mentais, emocionais ou físicas: tudo “Categoria Container”.
Honestamente, não me parece patético ou triste visualizar os grandes embrulhos dentro deste meu container imaginário. O que me dói mesmo é a pequena, minúscula quantidade de coisas que ficou do lado de fora dele: o que se perpetuará, o que fará diferença na minha vida e na dos demais, no final do filme. Dói comparar este pequeno pacote com o tamanho dos meus legítimos sonhos, sempre enormes, e minhas pretensões, maiores ainda. Sim, eu sei que há uma dimensão de tempo maior do que a durabilidade de qualquer container sutil ou concreto, e que sempre se poderá recomeçar. Mas o que foi desperdiçado foi Vida, e é duro e cruel pensar em desperdiçar Vida e sonhos humanos, matéria prima fundamental para mudar um mundo que necessita e anseia tanto por mudanças!
Claro, eu tenho uma preciosa teimosia que não me permitirá desistir jamais e, com o tempo, minha categoria “Out of Container” aumentará. Mas, se ainda resta um pouco de dor nesta memória, não é tanto e apenas por mim; é pelo desejo intenso de poder explicar aos outros que o desperdício é um ato insensato e, em última instância, egoísta. Onde as palavras para passar esta vívida constatação? Essa é uma tentativa; quem sabe, quem sabe... Esperança também é algo do qual, felizmente, fui muito bem dotada...

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