quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em torno de quê, ou de quem, nós nos reunimos?


Época de festas, é natural que todos voltem às suas famílias, e são comuns as fotos e relatos destes felizes reencontros. Este é um fator muito constante que leva à reunião das pessoas: o parentesco físico. Longe de mim querer questionar sua eficácia e aspecto benéfico secular, mas, como qualquer coisa no mundo manifestado, este fator é também dual: tem seus aspectos positivos, bem conhecidos, e alguns negativos. Lembro-me de uma experiência vivida na minha distante adolescência, quando assisti ao episódio de um pai que veio socorrer seu jovem filho, envolvido em uma batida de trânsito, e que desceu do carro pronunciando uma frase que nunca deixou de ecoar na minha memória: “Seja o que for que tenha acontecido, estou a favor do meu filho!” A favor do injusto contra o justo, do errado contra o certo, pois aquele é meu parente físico, e este último, não? Honestamente, eu preferiria ter um pai que descesse do carro e dissesse: “Seja o que for que tenha acontecido, estou a favor da justiça!”. Vínculos físicos de família acima de vínculos humanos de consciência, ou seja, de valores, já geraram (e geram ainda!) desastres tamanhos na história, que não vale a pena lembrar e muito menos citar, para não dar cores trágicas ao meu modesto artigo.

Outros vínculos que reúnem comumente os homens são relações mais de camaradagem do que de amizade verdadeira, onde a companhia do outro é entretenimento e fonte de diversão, com o mesmo grau de importância que o copo de cerveja ou a música ambiente. Não preciso dizer o quão descartáveis são estas relações, e a pitada de crueldade que há no uso do ser humano (ainda que mútuo e consentido) como mera fonte de lazer.

Há ainda a chamada “amizade” construída na cumplicidade de histórias pessoais compartilhadas: o choro no ombro do outro pelo namoro mal resolvido, pelos problemas do casamento, pelas dificuldades em educar os filhos... O suposto “amigo” se torna o espectador de um drama pessoal de pequena relevância, banal, que provavelmente, de outra forma, passaria (e mereceria passar) desconhecido por todos. Ainda que, às vezes, duradoura, essa união em torno de coisas tão pouco profundas e transcendentes carece de raízes que lhe permitam dar frutos de crescimento mútuo e de verdadeiro amor, que a façam ser digna do nome “amizade”.

Por fim, dentro do meu estreito conhecimento da natureza humana, vejo aqueles laços que se dão em torno de uma visão elevada, de valores, de um ideal, de uma percepção espiritual compartilhada; belo e nobre fator de união, este. Porém (e lá vem de novo o porém!), essa visão, como qualquer outra, para direcionar e dar a tônica de um relacionamento, não pode ser o “flash” de um dia, um acontecimento fortuito em nossas vidas, mas algo que se repita, em ritmo cada vez mais constante e níveis cada vez mais altos. Não andamos pelas ruas de olhos fechados, orientando-nos pela visão da calçada que tivemos dez anos atrás... Corremos o risco de bater contra a parede, defendendo o dogma de uma curva que já foi, há muito, extinta.

Quando nos unimos por uma visão fugaz, ainda que esta tenha sido nobre e elevada em seu momento, a relação, com o tempo, cai na mecanicidade (“piloto automático”) de coisas executadas já não se sabe bem o porquê;  surge um “jargão” de termos repetidos sempre com pompa e circunstância, mas cada vez menos profundos e vazios de sentido. “Nós estamos unidos em torno de uma Ideia”; belo, isso; mas qual era mesma o a ideia? Não vale resposta decorada...

Sem inspirações conscientes e cotidianas, a convivência cai numa banalidade e superficialidade semelhante a qualquer outra, construída em torno de coisas mais triviais, pois nada conserva seu valor quando ele se ausenta da cabeça e do coração. Isso acaba se assemelhando a uma solidão em uma gaiola dourada; corremos o risco de não tolerar uns aos outros e, ao mesmo tempo, morrer de saudades uns dos outros, daquilo que fomos, daquilo que poderíamos ter sido...

Anos atrás, eu dava um quarto horário de uma aula noturna de Filosofia, em meu trabalho voluntário, depois de uma jornada diária de meu trabalho convencional; começara minhas aulas à 19:00, e essa era a que terminava às 23:00, a última da noite... Dez minutos antes do fim da aula, com o corpo já pressionando a psique com seu cansaço, perguntei aos alunos se havia perguntas, e um deles levantou o braço:

“- Professora, se o Universo manifestado se expande infinitamente no tempo e no espaço, isso significa que a capacidade de compreendê-lo se expande também, em nós, até o infinito? Evoluir seria deixar de frear a nossa capacidade de compreensão? Ignorância é uma forma de inércia, de preguiça de compreender, para não se comprometer?”

Os olhos dele brilhavam, e ele nem tocava o encosto da cadeira, ansioso por resposta; era uma pequena parcela de um grande mistério, que ele havia roçado, e aquilo era vital para a forma como ele viveria a partir dali... Era muito, muito bonito; minha garganta ficou presa por um nó de lágrimas pela constatação: somos filósofos, que belo! Cansaço? Quem estava cansado, aqui?

Por um minuto, lembrei da filósofa Hipátia, no filme” Ágora”: ela vivia numa época de conflitos terríveis, conturbada, e sua vida era constantemente ameaçada; mas ela andava sempre preocupada apenas com um fato: como a terra se movimenta em torno do sol para provocar as estações? Uma órbita circular não geraria este efeito... olhava para o céu e se perdia,  sonhando e intuindo a órbita elíptica que, séculos depois, Kepler constataria. Convulsões sociais, vida em risco? Secundário. E ela tinha razão: de uma forma ou de outra, todos os que ali viviam, e muitas gerações depois, já foram há muito tempo tragados pela morte; a elipse da Terra em torno do Sol, grande mistério, ainda está aí, renovando a vida do planeta e recolhendo-a, ciclicamente.

Guardadas as devidas proporções, eu me sentia um pouco assim, aquele dia, frente ao meu aluno: dia cansativo, hora avançada? Estávamos roçando, ambos, a mais ínfima barra dos mistérios da consciência humana! Era a primeira hora, luminosa e pura, da manhã, não importa o que os relógios dissessem... Os relógios mentem muito.

Lembrei da história do patinho feio, que só se reconhece como cisne quando encontra outro igual a ele; é um momento sagrado de nascimento e/ou confirmação de nossa identidade, esse encontro de alma. Algo luminoso e belo nasce; é Natal.

Dizem que as famílias se reúnem quando é Natal; penso que é o contrário: sempre é Natal quando as famílias, no seu sentido mas espiritual, se reúnem. Esse fator de união reforça nossa identidade, relembra a conformidade com a Lei Divina que vive em nós. Dá segurança, serenidade, paz... Felicidade.

Quem viveu isso, um dia, deveria alimentar essa chama a todo o tempo: “Não deixe que se apague a Chama...” dizia o clássico egípcio “O Caibalion”. A companhia física não supre a sede de companhia da alma; em torno do Fogo, somos sempre uma família reunida, e é sempre Natal.

Eu me chamo Lúcia, sou uma Filósofa; este é meu sobrenome, nome de família. Qual é seu sobrenome? Será que não somos da mesma família? Que tal compartilhar seu Natal comigo?

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